Cardoso limpou devagar os olhos húmidos com a palma da mão e depois ajeitou com cuidado as pequenas tábuas com que estava a construir o brinquedo para a neta. Desde que metera mãos à obra - e já ia adiantada - não havia dia nenhum em que não se lembrasse do abraço e da voz rude do subchefe de Redacção: «Você merece, oh Cardoso!»
Levantou-se. De vez em quando sentia aquilo, uma dificuldade em respirar, uma opressão no peito. A mulher afligia-se, a filha repetia que talvez fosse psicológico, mas, tanto uma como outra, insistiam para que ele fosse ao médico. Desabotoou alguns botões do casaco do pijama e massajou devagar, à altura do coração. Sentia-se oprimido. Como se tivesse uma tristeza grande.
Foi até à janela. O sopro do respirar esforçado bateu nos vidros fechados e embaciou-os, formando uma cortina opaca que se interpôs entre ele e a rua, indefinindo e distanciando tudo o que se avistava lá fora. Abriu a janela com um safanão e logo o vento frio do inverno lhe fustigou o rosto crispado e arrepiou o peito meio descoberto. «Este inverno nunca mais se some de vez», gritou, entre dentes, e fechou com raiva a janela.
Começou a dormir mal. Acordava a meio da noite, dava duas ou três voltas na cama, virava-se para um e outro lado, mas depois tinha de se levantar. Era aquela falta de ar, aquela dificuldade em respirar. Ia até à cozinha, às vezes comia qualquer coisa, aquilo passava ou então sentia-se mais aliviado e voltava para a cama. Talvez a filha não andasse muito longe da verdade. Devia ser coisa psicológica, que era uma maneira moderna de se dizer que era cisma. É certo que ele nunca fora homem de cismas. E nem de doenças ou achaques. E nem de médicos. Mas, quando o inverno levantasse, havia de ir a uma consulta. Ou então dar umas voltas por aí, para espairecer e emagrecer um pouco. Sim, emagrecer, porque desde que se reformara - até custava a entender!... - não comia quase nada, mal petiscava qualquer coisita e estava a ficar gordo, com a cara papuda e os braços balofos.
Com a chegada da primavera e dos primeiros calores, que vieram de repente, a opressão agravou-se. Aquele bafo quente que saía da terra a acordar, espreguiçando-se ainda da sonolência do inverno mas já a rebentar de seiva, de flores e de frutos germinados, parecia asfixia-lo. Aquela electricidade que pairava na atmosfera, coalhada de nuvens e de trovoadas, não o deixava respirar.
Já tinha ido ao médico que o mandara fazer uns exames e umas análises, alguns já tinha feito mas os resultados demoravam, outros ainda nem tinha ido marcar. Agora, já quase que nem conseguia dormir. Recostava-se numa cadeira de descanso que punha na varanda e ficava para ali a contar as estrelas e a sentir os ruídos que quebravam o silêncio da noite: um carro ou outro que passava, um cão que ladrava na rua, gente que às vezes falava fora de horas. Corria-lhe pelo pensamento um enredo de coisas a despropósito. O ribombar da voz do subchefe de Redacção, o “Bulldozer”, misturava-se com o falar sinuoso e escorregadio do Engenheiro Gomes e com as conversas animadas da rapaziada lá da empresa. As vezes nem sabia se estava acordado se a dormir. Via-se de novo encostado às mesas de montagem, confiando os segredos da arte aprendida na experiência de muitos anos, dos tempos em que tudo era ainda a chumbo e mais complicado de fazer, aos gráficos mais jovens e inseguros. Tantos que tinham aprendido com ele! Alguns tinham-se tornado profissionais briosos e competentes. O Zé Fernandes, por exemplo, e outros, muitos outros. Onde estaria a gravura que o Director lhe tinha dado na festa comemorativa dos cinquenta anos do jornal? Sem dúvida arrumada numa gaveta, junto ao álbum das fotos e a outras lembranças que se vão guardando como sinais da vida.
Não foi difícil encontrar a caixa com a gravura. Premiu o fecho metalizado com um “clique” leve e seco e a caixa abriu-se. Lá estava a gravura, aconchegada entre o almofadado cor-de-vinho, escurecida pela luz fraca do candeeiro do móvel. Olhou-a com o ar admirado com que se observa uma coisa conhecida mas que se não vê há muito. Passou-lhe a mão por cima e sentiu as rugosidades com a ponta dos dedos. Afinal, era mais leve e pequena do que lhe parecera ao recordá-la. Sem aviso, um relâmpago entrou pela janela e feriu a obscuridade da sala. Cardoso levou as duas mãos ao peito, num sobressalto, contraindo contra ele a caixa e a gravura. Era de novo aquela falta de ar, agora mais aguda e urgente. Ao longe, esmorecido e distante, perdia-se o ruído do trovão.
A tactear as paredes, encalhando nas arestas dos móveis, aos tropeções, Cardoso conseguiu chegar até ao quarto e atirou-se para cima da cama. A caixa e a gravura, cada uma para seu lado, caíram no chão sem ruído, amortecidas na queda pela lã do tapete. A mulher de Cardoso acordou assustada e acendeu a luz.
*
A notícia da morte de Cardoso deixou toda a gente consternada lá na empresa. «Ainda há tão pouco tempo andava ele por aqui cheio de saúde!...», repetiam os gráficos, a olhar à volta, como se acalentassem alguma vaga e secreta esperança de o ver aparecer de novo por entre as mesas de montagem. «Ainda nem fez um ano que ele se reformou...», acrescentavam, a abanar a cabeça.
No velório, Zé Fernandes abeirou-se da viúva e perguntou, num murmúrio, tolhido pelo medo respeitoso da presença da morte:
«Foi do coração?»
A mulher de Cardoso acenou afirmativamente com a cabeça.
«Tão seu amigo que ele era, o meu pobre Manuel», lamentava-se ela, por entre lágrimas, segurando devagar as mãos de Zé Fernandes. «De si e de tantos colegas lá da empresa.»
Demorou-se algum tempo agarrada ainda às mãos do antigo companheiro de trabalho do marido, e depois acrescentou, numa lucidez angustiada:
«E eu que fiquei tão feliz quando soube que ele se tinha reformado... Como me enganei!... O meu pobre Manuel aborrecia-se muito por não ter nada de importante para fazer... Por mais coisas que ele inventasse para queimar o tempo, sentia-se muito sozinho... Sentia-se um inútil, um inútil!... Nunca se conseguiu habituar, o meu pobre Manuel. Foi decaindo dia após dia, entrou naquela tristeza. Foi isso que o matou!»
E ficou-se a repetir, numa explosão incontrolável de lágrimas: «Foi isso que o matou! Foi isso que o matou!»
Fim
anamar - 1989
Este conto faz parte de uma colectânea premiada com uma Menção Honrosa na IV edição (2002) do Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, promovido pela Câmara Municipal de Santiago do Cacém.
Publicado por vmar em janeiro 5, 2004 04:17 PMÉ sempre uma sensação estranha abrir o "baú" e reler...
... jinhos (L)